
Graça, Paz e Descanso para a sua alma!
Confesso que ainda sou um ser ansioso...desejo não ser.
Minhas unhas são testemunhas disso. Desde a infância elas são destroçadas pelos dentes, refletindo um conflito interno dentro de mim. Os dentes destroem a unha, como se quisessem destruir algo ruim em mim. A unha se vinga, expondo a frágil carne dos meus dedos, provocando dor, retraindo temporariamente os dentes. A dor passa, o conflito não, e a luta continua.
Quem me conhece sabe que sou um destruidor de minhas próprias unhas. O negócio é tão feio que, como minha boca não alcança o pé, eu estrago as unhas dos pés com as unhas estragadas das mãos (rsrsrs). No auge da ansiedade, às vezes o dedo até sangra. Já tentei de tudo pra resolver esse problema. Já experimentei colocar base na unha...resultado: eu roí a base e a unha. Tem base? Já passei pimenta...ficou mais picante...mas não funcionou. Já fiz promessa de parar de roer, não funcionou. Fiz até uma barganha com minha esposa no início desse ano: ela passaria a tomar mais água por dia e eu pararia de roer as unhas e...bem...pelo menos ela está tomando mais água.
E o que tem a ver o Evangelho com as unhas? No meu caso, muito! Pois se o Evangelho é experimentado pela fé e gera a Paz, a vida sem o mesmo ocorre pelas vias da ansiedade e gera conflitos no ser. Sei que Paulo foi muito mais profundo que eu na explanação do conflito básico que habita todo o ser humano, em Romanos 7. No entanto, este velho hábito destruidor de unhas serve pra mim como lembrança de que o meu ser ainda não foi plenamente pacificado no Evangelho, ainda...
Percebi que todos esses esforços, promessas e barganhas feitas para o abandono dessa mania feia, se assemelham muito com os métodos religiosos de "santificação" do ser humano. O principal método é a coação social que envergonha ou rejeita o indivíduo quando o mesmo não se comporta dentro do padrão de crente pré-estabelecido pela comunidade. Mas mesmo as mais belas disciplinas espirituais como o jejum, a oração e a leitura da Palavra tornam-se práticas ansiosas, quando são realizadas à parte da certeza do Amor de Deus e da beleza inconcebível de Sua Graça. Às vezes tem efeito temporário sobre algum hábito pecaminoso, mas a pulsão do mesmo jamais é extinta. Ou seja, inter-ferem no comportamento mas não mudam a consciência e, principalmente, não pacificam o ser.
No afã de conhecer as raízes da minha ansiedade, fiz-me uma auto-psicoterapia comigo mesmo. O excesso de redundância é proposital, para deixar claro o quão profunda foi essa minha auto-análise. Coloquei minha alma no divã e perguntei-lhe: de onde vem essa sua ansiedade? Ela me disse que não vinha de desejos materiais, visto que tenho hoje muito mais do que pensei que teria algum dia e saberia voltar a viver se perdesse o que tenho. Não vinha do medo da morte, visto que, desse mal que Cristo já matou, eu não morro mais. Insisti, insisti, mas percebi que não podia confiar em mim mesmo na identificação das causas de minha psicose básica. Afinal, enganoso é o coração, mais que todas as coisas. Foi apenas no manual do meu fabricante que consegui identificar as causas da meu conflito interior, fonte de toda a ansiedade. Miserável homem que eu sou, quem me livrará do corpo desta morte? Dou graças a Deus por Jesus Cristo nosso Senhor. Assim que eu mesmo com o entendimento sirvo à lei de Deus, mas com minha carne à lei do pecado.
Na conversão, preocupações quanto ao comer, beber e vestir foram extintas, mas o anseio quanto a viver e pregar o Evangelho me deixaram ansioso. Hoje entendo que esse modo de viver o meu chamado, pelo menos da maneira que eu o via, fazia concorrência com a própria vida. Antes da conversão havia uma certa falta de sentido na vida. Após a conversão, havia um propósito tão alto a cumprir que deixavam as experiências, prazeres e ocupações da vida sem sentido, ou pior, essas coisas tornaram-se obstáculos ao chamado. Ou seja, subexistia dentro de mim, após a conversão, uma espécie de ansiedade evangélica não resolvida...
Vivia eu uma espécie de dicotomia entre o espiritual e o carnal, entre o eterno e o temporal, entre o culto e as festas, entre o evangelismo de rua e o caminhar pela praia. Meu ser religioso, bem envolvido "na obra", se confrontava com aquela parte em mim que curtia o futebol, a fórmula 1, um banho de mar, uma bela moda de viola.
Mas a Graça de Deus, a mesma Graça que me salvou, que mudou o meu estado eterno, muda também a minha existência diária e o meu estado mental. Afinal, um poder de consequências eternas tão profundas que não tenha consequências nessa vida não podia ser o Evangelho. Aceitei o convite de Paulo para não me con-formar com este mundo, mas transformar-me pela renovação do meu entendimento, não conforme a minha própria consciência, mas conforme a consciência do Evangelho. Parafraseando o Raul Seixas, eu prefiro ser essa metanóia (mais profundo que "metamorfose") ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo.
O Amor é absoluto, mas a interpretação minha ou de qualquer outro homem acerca Dele, por mais santo e sábio que seja tal homem, será sempre relativa e imperfeita diante do absoluto e da perfeição de Deus. Portanto, todo esforço no sentido de sistematizar Deus é inglório e infrutífero. O que nos resta é deixar a Palavra viva e eficaz, mais penetrante que espada alguma de dois gumes, penetrar as profundezas de nosso espírito e formar, pelo Espírito Santo, o Filho de Deus em nós.
O Evangelho é absoluto. Eu, todavia, sou relativo, assim como minha percepção acerca de tudo. Mas Ele em mim, como poder dinâmico de Deus em mim, transforma-me dia após dia, e a minha própria percepção acerca do mesmo, da vida e dos semelhantes ganha novos contornos diante da certeza e da grandeza do Amor de Deus e do escândalo de sua Graça.
Mas não se trata de uma doutrina que eu tenha aprendido, de uma nova teoria que eu tenha lido em algum livro, muito menos de algo que eu tenha concebido a partir de mim mesmo. Ainda que a informação sobre a Graça me venha de diversas fontes, sendo a Bíblia a principal delas, ela só tem graça e sentido quando experimentado no mais profundo dos rins. Perdoe-me se usei os rins ao invés do coração, mas como já tive cinco crises renais, já os senti mais intensamente que o próprio coração.
É a revelação de Deus em mim. É a unção que em mim habita e que me ensina todas as coisas. É a pedagogia do Espírito Santo que nos conduz à toda verdade. É o testemunho das Escrituras que testificam de Cristo e da obra maravilhosa que ele realiza dentro de mim. É o encontro com Jesus Cristo, que é sacerdote eterno segundo a ordem de Melquisedeque, que é Rei de Paz. É o vento do Espírito, que sopra onde quer e não pode ser canalizado pelo aeroduto da religião e dos teólogos. Como disse Jesus, "o vento assopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito."
Como disse o autor aos Hebreus, ainda resta um repouso para o povo de Deus. Jesus Cristo é o lugar-existencial deste repouso. Minha alma repousa em paz, visto que a minha confiança está na Rocha da minha salvação e não a areia-movediça de meus comportamentos. Aos poucos, enquanto vou dando razão a Deus, reconciliações nos níveis mais profundos da minha existência vão acontecendo...
Não há fonte de ansiedade maior para a alma de um pecador do que ter que confiar nele mesmo a fim de atender às expectativas divinas. Já disse e repito: Jesus de nada me serve se ele for apenas o padrão de excelência a ser copiado por mim a fim de ser salvo. Ainda que eu seja eternamente comovido pelo seu exemplo, não consigo ser como Ele. Pelo contrário, Sua Excelência deixa minha excrescência ainda mais gritante. Minha situação pede um Salvador, visto que, se os meus feitos fossem pesados na balança divina, eu certamente seria achado em falta, não passaria no teste do amor e nem da verdade.
Assim sendo, dou Graças a Deus por meu Senhor Jesus Cristo, em Quem fui feito justo, em quem fui feito santo, em Quem fui feito herdeiro do Reino dos Céus. E assim, quanto mais firme é a certeza da Salvação de Deus, menor é a ansiedade. Afinal, que ser humano sincero consigo mesmo consegue viver em paz, se é ensinado que quando peca está no inferno e, apenas depois do arrependimento-confissão, ele é restaurado ao céu!! Que homem pode viver em paz se crê que é querido por Deus quando acerta e rejeitado por ele quando falha. Definitivamente tal Deus não é o Senhor da Bíblia e nem o Pai de Jesus Cristo. Jesus não é uma possibilidade de salvação, é a revelação da certeza da Boa Vontade de Deus pra todo o que crê, decidida na Eternidade e consumada de uma vez por todas na História humana, na CRUZ!! Soa trivial?? Consulte o seu próprio coração para verificar se essa boa notícia está arraigada nele.
Alguém que crê na salvação parcial, condicionada à performance humana, que Evangelho pode anunciar? Pode até pregar a necessidade de cumprimento Lei e toda a maldição para aquele que não a cumpre integralmente. Mas não pode pregar Aquele que cumpriu a Lei, tornando-se maldição pelo pecado de todos os homens.
O acima escrito não abrange a mais ínfima parte da essência do Evangelho, do alcance do mesmo e de suas consequências na vida presente. Tampouco eu sou um entendido sobre o assunto. Sou apenas um ser bem-aventurado pela decisão de Deus de me salvar do inferno futuro e do inferno de ter que viver no presente sem que essa decisão de Deus traga paz ao meu ser. Não jugo que haja alcançado, nem que seja perfeiro, mas uma coisa faço, que é deixando as coisas que atrás de mim ficam, prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus.
Sou um ser no gerúndio, sempre indo, sempre mudando, sempre esperando, e nesse Caminho existencial, vou sendo transformado a imagem dAquele que me criou à Sua imagem. Nesse processo, há interrupções, há tropeços e quedas, mas a graça de Quem me chamou é tão grande que, quando caio, Nele caio. Com isso o meu ser é continuamente pacificado...e que minhas unhas experimentem nesse percurso o alívio de não serem mais destruídas por mim mesmo...E assim, a vida é reconciliada com o chamado de Deus para a pregação no Evangelho, sobretudo quando outros enxergam em mim o frescor de quem bebe continuamente da Água da Vida.
Um beijão no seu coração e o desejo sincero de que sejas continuamente pacificado em Deus e também sejas um pacificador de vidas, à medida que pregas o Evangelho do Senhor Jesus.
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Rubens Júnior, 71 99253695
Estação do Caminho da Graça em Salvador - Região Iguatemi