Meus amados no Senhor,
Blaise Pascal disse que os homens jamais fazem o mal tão completamente e com tanta alegria como quando o fazem a partir de uma convicção religiosa.
Tenho pensado muito nisso nos últimos dias, especialmente após os impactos causados pela palavra ministrada durante o Encontro Nacional do Caminho da Graça em Brasilia. Longe de mim de atribuir ao Encontro qualquer operação miraculosa em si mesmo, como se o “evento” carregasse alguma unção ou poder autônomos, independente da pessoas ou de Deus. Defintivamente,Não! Qualquer encontro ou reunião só ganha sentido espiritual para os seus participantes a partir da aceitabilidade, fé, amor, fervor e entrega de cada um que para ali acorre. Do contrário, qualquer ajuntamento, ainda que em nome de Deus, se não vivido em uma dimensão espiritual sadia, se experimentado como oportunidade egoísta de formação de capital espiritual, sem voluntariedade ou fraternidade comunitária, assemelha-se muito mais a uma convenção partidária, “meeting” clubístico, sem qualquer conseqüência para a vida no Espírito.
Os atentados do 11 de setembro de 2001, que agora completam 09 anos, têm sido tema de programas jornalísticos em redes de TV, em canais como Discovery ou History Channel.
Vários filmes e documentários foram produzidos tendo como pano de fundo a intolerância religiosa, o fanatismo, a rivalidade entre as crenças monoteístas predominantes e a insurgência diante do imperialismo perpetrado pelas nações ricas, cuja representação mais típica recai sobre os EUA.
O que me chama a atenção, entretanto, e que é a razão da citação que faço de Pascal no início do texto, é exatamente a entrega sem reservas, a crença indubitável, destemida daqueles que se fazem homens-bomba, daqueles que doaram as suas vidas para prepararem e realizarem o atentado contra o World Trade Center e o Pentágono, naquela fatídica manhã de 11 de setembro.
Chama a atenção, ainda, a convicção dos que se doam e não somente destes, mas dos seus pais, irmãos e amigos, compatriotas que exprimem forte admiração por aqueles que de modo “obediente”, manifestaram ao mundo a sua submissão a Alah e à fé muçulmana cultivada por grupos extremistas.
A crença de que o sacrifício de suas jovens vidas representa uma oferta ou um investimento que será recompensado num paraíso post mortem, é o combustível básico para a aventura suicida.
Conquanto tenhamos, predominantemente, entre os muçulmanos,dois grupos (moderados e extremistas), ambos têm um vínculo em comum que explica todo pensamento vigente nos países do Oriente-Médio: a religião.
Ora, ainda que se diga da existência de um grupo moderado entre os fiéis islâmicos, coexistindo com os extremistas citados anteriormente, este segmento, que sugere uma facção mais equilibrada, tem, em essência, a mesma esperança: a prevalência e vitória do Islâ sobre toda a terra.
Este desenho mal acabado que apresento, é apenas para que compreendam o que, a meu ver, é algo mais sério: a influência nefasta da religião na civilização dita pós moderna (termo com o qual não concordo), definindo alianças, convívios, organização político-administrativa como no caso da República Islâmica do Iran, mapeando e ditando comportamentos, manipulando consciências, restringindo liberdades, fomentando guerras santas, gerando mártires, sejam muçulmanos, cristãos, hindus, todos enrolados na mesma bandeira.
Não soa paradoxal? Por que homens que apregoam terem experimentado ou conhecido o verdadeiro amor são tão vacilantes e covardes? Por que afirmamos acreditar que o amor afasta todo o medo, mas não há destemor efetivo que nos instigue a falar do amor de Cristo com a convicção e entrega com que os Shahids (mártires islâmicos) manifestam?
Não estou convidando ninguém para encampar uma jihad (Guerra santa).Isso já aconteceu com as cruzadas, com a invasão americana organizada pelo cristão Bush e foi proposta esta semana pelo desarrazoado pastor americano que ameaçava queimar exemplares do Alcorão como protesto pelo atentado de 11 de setembro.
Só pretendo chamar a atenção para esta realidade intrigante, perturbadora. Se temos uma mensagem de amor, de boas novas para o mundo, de cura, de paz, de transformação, por que somos tão reticentes? Por que nos enfiamos em nossos guetos? Por que as placas escondem a tantos? Por que as paredes continuam sendo trincheiras inacessíveis denominadas de templos e que são usadas como escudos de proteção para as nossas “convicções”?
Por que não temos coragem de morrer para o mundo e a sua ideologia para produzir vida em tantos que perecem? Por que não somos radicais com o que realmente importa? Por que o Amor não nos seduz a esta radicalidade?
É provável que o mesmo sentimento maligno que move os que matam em nome de Alah, por via transversa, motiva, em nome de Deus, aqueles que num arroubo farisaico, também se colocam como juízes dos homens, como diferentes dos outros seres humanos, como detentores da verdade, como praticantes da doutrina correta, do dogma que salva, da superioridade moral que discrimina, que faz distinção entre grego ou judeus, tradicionais ou pentencostais, arminianos ou calvinistas.
Em Mateus 15, Jesus diz que os fariseus anulavam os mandamentos de Deus por causa de suas tradições. Os costumes, regras e doutrinas que criavam eram supostamente consistentes com os mandamentos de Deus, mas na verdade redefiniam os mandamentos de Deus para as suas vidas.
A tradição, que é a realidade ontológica, essencial de qualquer religião, é, para Jesus, capaz de anular a Palavra.Trocando em miúdos, se o Evangelho não for recebido com simplicidade e com sensibilidade no Espírito, mas ao contrário, for compreendido por meio de muletas teológicas, com a utilização de ferramentas dogmáticas, seu poder é nulo, encoberto e asfixiado pela religião.
Não é por outra razão que homens religiosos desprezam o único mandamento de Jesus, que é o Amor, em detrimento de sugestões piedosas de comportamento, que em última instância revelam injustiça, falta de caridade, egoísmo, avareza, crueldade com o próximo.
A convicção religiosa é um mal que leva à cegueira. A história e trajetória do homem na terra demonstram isso.
Temos, porém, um motivo auspicioso e glorioso para anunciar o evangelho, as notícias alvissareiras de que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, que tudo foi pago na Cruz do calvário, que não razão para guerras, para embates, para partidarismos, divisões, dissensões, sacrifícios, dúvidas, medos, culpas.
Tetelestai! Está Consumado! Totalmente pago! Esta é a nossa verdadeira situação em Cristo no que concerne à satisfação da justiça divina e à salvação.
Que tal você dizer isso ao seu vizinho? Ao seu amigo? Que tal deixar a vergonha de lado e propor vida para aqueles que morrem ao seu lado? Que tal orar com fé pelos enfermos, vistar os presos, os que já não podem deixar os hospitais?
O que acha de pedir ao Senhor que lhe conceda o mesmo Espírito de ousadia que houve em Cristo Jesus, nos apóstolos e em tantas pessoas que você conhece a fim de, sem meias palavras, anunciar o Evangelho da Paz?
Este é o tempo, esta é a hora.Seguir a Jesus requer uma decisão radical no modo de vida.Requer dedicação em serviço, no lavar os pés dos outros, no apregoar a verdade com zelo e amor.
É tempo de entrega radical, de morrermos para o mundo, para a vida tal qual ela foi desenhada pelo espírito deste mundo.
“Se o grão de trigo, lançado na terra, não morrer, fica só, como é; mas, se morrer, produz abundante fruto” (Jo 12,24).
Paz e Vida para todos.
Romualdo Jr.