O credor incompassivo, Simão e a Pecadora. Por que muitos não aceitam a GRAÇA.
Mateus 18: 23 e Lucas 7:36 são textos que se complementam quanto ao ensino dirigido para uma vida na Graça.Em ambos, observamos figuras ilustrativas de um Deus que se relaciona ativamente com os homens, proporcionando-lhes o perdão, mesmo sem merecimento algum.
Nos dois textos, fica claro o desprezo de Deus pela tentativa humana de se justificar, pela pretensão do homem de forjar santidade, tudo como fruto de uma meritocracia que prescinde de Deus.
Em Mateus Jesus assim conta uma parábola: "Por isso o reino dos céus pode comparar-se a um certo rei que quis fazer contas com os seus servos; E, começando a fazer contas, foi-lhe apresentado um que lhe devia dez mil talentos; E, não tendo ele com que pagar, o seu senhor mandou que ele, e sua mulher e seus filhos fossem vendidos, com tudo quanto tinha, para que a dívida se lhe pagasse. Então aquele servo, prostrando-se, o reverenciava, dizendo: Senhor, sê generoso para comigo, e tudo te pagarei. Então o senhor daquele servo, movido de íntima compaixão, soltou-o e perdoou-lhe a dívida. Saindo, porém, aquele servo, encontrou um dos seus conservos, que lhe devia cem dinheiros, e, lançando mão dele, sufocava-o, dizendo: Paga-me o que me deves. Então o seu companheiro, prostrando-se a seus pés, rogava-lhe, dizendo: Sê generoso para comigo, e tudo te pagarei. Ele, porém, não quis, antes foi encerrá-lo na prisão, até que pagasse a dívida."
Este servo devia uma fortuna ao seu senhor. Ainda que trabalhasse incessantemente e auferisse mil reais por dia, ainda assim ele levaria muito tempo até pagar a sua dívida.Sua dívida ia muito além de sua capacidade de pagar.
Assim também era o nosso estado, nossa situação diante de Deus. Nosso débito era impagável.
Perceba que o servo da parábola promete ao seu senhor que lhe dê uma oportunidade e ele lhe pagaria tudo quanto devia. O servo não pede o perdão da dívida, não pede que ela seja esquecida, apagada, não acredita que isso seja possível, porém confia em sua capacidade de pagar a dívida se tivesse o devido tempo e oportunidade.
O servo sequer considera a possibilidade de seu senhor ser um homem generoso a ponto de perdoá-lo de uma vez por todas, ele não leva fé nessa possibilidade.O rei, porém, surpreendentemente, resolve perdoar a dívida.Veja! Ele não adia o dia do pagamento, ele não alonga a dívida, ele não sugere que seja parcelada em centenas de prestações. Não. Ele simplesmente perdoa, e ponto.
Ao ser liberto, porém, o servo que fora maravilhosamente perdoado, encontra alguém que lhe deve cem denários, uma ninharia perto do que ele devia ao rei. Sem qualquer misericórdia, ele cobra o seu devedor, ameaça-o, sufoca-o para que pague os trocados que devia.O devedor, entretanto, roga sua misericórdia, pede um tempo para que possa arrecadar o dinheiro. Aquele homem não se comoveu e encerrou o devedor na prisão.
Sei que você deve ter ficado horrorizado com o comportamento desse homem. De fato, sua atitude é grotesca e irracional. Um homem que foi perdoado de tão grande dívida, em contrapartida, deveria ser capaz de perdoar a quem lhe devia tão pouco.
O que chama a atenção no ensino de Jesus, além da ingratidão do primeiro servo, é que este tinha dificuldade de aceitar o perdão, de aceitar qualquer oferta de graça. Na parábola não podemos vê-lo agradecendo ou se tornando eternamente grato pelo favor do rei.
Antes, contudo, ele tentava convencer ao rei de que poderia fazer frente àquela dívida.
Aquele servo, tratado na parábola como credor incompassivo, não foi capaz de entender o ato de graça e misericórdia que lhe foi ofertado. Ele não conhecia o que era amor, não podia entender sua extensão, não podia oferecer amor igual a quem lhe devia. A sua presunção levava-o a crer que podia muito bem seguir sem o perdão, que poderia muito bem pagar o seu débito e não careceria do favor de ninguém.
Assim nos comportamos muitas vezes. Consideramos que uma simples mudança de postura, a assunção de um novo estilo de vida ou a nossa decisão, superam o perdão que já nos foi oferecido. Não acreditamos que este perdão seja tão abrangente assim, não conseguimos enxergá-lo senão a partir das categorias humanas de causa/efeito, de barganhas, da compra de indulgências espirituais.
Aprendemos que o amor de Deus se voltará para nós quando pudermos pagar por isso. Em outras palavras, não atentamos para a sentença do Rei de que "está consumado", "está pago", não há mais dívidas. Ao contrário, insistimos que precisamos pagar e que temos com o que honrar nossa dívida.
Em nosso espírito presunçoso, uma vida ascética ou uma reputação exterior ilibada são moedas suficientes para remir a dívida. Nosso comportamento religioso ou a nossa disposição em mostrar que podemos "ser' deve servir como aceno de que teremos méritos admiráveis.
Em Lucas 7:36, temos uma experiência semelhante. Neste texto, um homem chamado Simão convida a Jesus para jantar em sua casa.
Ele é um reverendo, um líder religioso, um respeitável cidadão de Carfanaum, um exemplo entre os habitantes daquela cidade.
Na ocasião, porém, uma outra personagem se torna figura de maior destaque do episódio.Vejam! Não é o fato de Jesus estar entrosado com uma autoridade religiosa local que se torna relevante no texto. A figura dissonante naquele evento era uma "pecadora" ou, em outra tradução "uma prostituta.
É impossível não imaginar a cena. Simão, um homem digno e respeitável, um defensor da moralidade, tem agora na sala de sua casa uma mulher de conduta reprovável.
Será que ele pensou em expulsá-la de sua casa? Será que lhe ocorreu chamar seus empregados e ordenar que a retirassem dali? O que Jesus pensaria dele? Não seria uma atitude grosseira?
O pior para Simão é que a mulher fez pouco caso dele e dos demais na festa, à exceção de Jesus, claro. Ela não estava lá por causa deles, mas por causa Dele.
Ela deveria mesmo chamar a atenção. Ganhava a vida vendendo o seu corpo. Suas vestes deveriam ser mais extravagantes, bem como seus gestos, seu modo de andar. É possível que tenha sido uma mulher bonita, voluptuosa, despertava a atenção de seus clientes e a ira dos defensores da moralidade.
Ele a vê rastejando aos pés do Mestre. Ele a observa imóvel, não consegue acreditar no que seus olhos vêem: aquela mulher, uma prostituta, lava os pés de Jesus, enxuga-o com os cabelos, derrama perfume sobre ele...
Se este Jesus é mesmo quem diz ser, saberia quem é essa mulher – Pensou Simão.
Jesus sonda o coração, os pensamentos de Simão e por isso interpela-o: "Simão, tenho algo a lhe dizer"
" Pode dizer, Mestre." E Jesus começa...
"Dois homens deviam a certo credor. Um lhe devia quinhentos denários e o outro, cinquenta. Nenhum dos dois tinha com que lhe pagar, por isso perdoou a dívida a ambos. Qual deles o amará mais?" Simão respondeu: "Suponho que aquele a quem foi perdoada a dívida maior."
"Você julgou bem", disse Jesus.
Em seguida, virou-se para a mulher e disse a Simão: "Vê esta mulher? Entrei em sua casa, mas você não me deu água para lavar os pés; ela, porém, molhou os meus pés com suas lágrimas e os enxugou com seus cabelos. Você não me saudou com um beijo, mas esta mulher, desde que entrei aqui, não parou de beijar os meus pés. Você não ungiu a minha cabeça com óleo, mas ela derramou perfume nos meus pés. Portanto, eu lhe digo, os muitos pecados dela lhe foram perdoados; pois ela amou muito. Mas aquele a quem pouco foi perdoado, pouco ama" (Lucas 7:40-47).
Jesus não era um convidado ilustre para Simão. Ele o convida, mas não o trata com a devida deferência. Não há as cortesias comuns entre os judeus. Não há beijo, não há uma saudação calorosa, não há água para lavar os pés, não há óleo para a sua cabeça.
Jesus entrara na casa de um homem que se achava digno demais. Para ele, Jesus visitava agora a residência de um homem considerado na comunidade, o prazer e a honra seriam de Jesus.
Simão nada faz para que Jesus se sentisse especial e bem vindo. A mulher, entretanto, faz tudo o que ele não fez. Não se diz quem ela era, somente que era pecadora. O certo é que ela não se intimida com a opinião daquela gente que a denegria ou discriminava.
Ela ignora as convenções e até o fato de ser uma intrusa naquele local. Lança-se aos pés sujos de poeira de Jesus. Ela não se importa. Ela lava-os agora com suas lágrimas.A emoção era tanta que elas jorram sobre os pés do Senhor. Ela não usa uma toalha para secá-lo, ela usa os seus cabelos. Sem qualquer cerimônia, ela derrama sobre a pele Dele um frasco de perfume, talvez seu único bem.
Em nossa expectativa permeada pela religião, nós esperaríamos que o reverendo, que o estudante de teologia Simão, que o homem de moral, cumpridor e apregoador das regras fosse mais amável com Jesus. Ele, no entanto, tratou Jesus com indiferença, frieza, com a distância própria de quem confia em si mesmo, de quem não se considera carecedor de nada, mas justificado por seu próprio desempenho.
O amor de Simão é controlado, parcimonioso, o amor da mulher é extravagante, é de entrega total, de absoluta confiança em quem ama.
Você consegue ver a diferença de comportamentos? Consegue entender o porque? O que a mulher considera que Simão não trata com a mesma importância? O que ela estima tanto? O que Simão não percebeu?
Ela simplesmente se convenceu do amor de Deus. Não se sabe como e o que ela tinha ouvido de Jesus. Quem sabe não ouviu falar do modo como tratava a todos? Quem sabe não lhe disseram que Ele sentia enorme prazer em sentar-se com os mendigos, com os marginalizados, com os cobradores de impostos, com os beberrões e glutões, com todos os que já estavam condenados pela sociedade?
Quem sabe ela não tinha sido sua ouvinte numa de suas pregações num daqueles montes? Quem sabe ela não tinha se comovido com as palavras doces, inclusivas, cheias de amor verdadeiro, amor que ela não havia encontrado em nenhum homem com quem dormira?
Ela sabe que é pecadora. Ela se sabe sedenta, necessitada de amor verdadeiro, de perdão, de acolhimento, de respeito, de consideração.
Gente como Simão acha que não precisa de Graça. Gente como ele nem sabe que está sedento, que é também pecador, que não pode justificar-se por si mesmo ou por suas obras.
Gente como Simão não entendeu o significado de misericórdia, nem entende que precisa dela.
Simão não consegue amar com um amor tão forte quanto o daquela mulher. Ele não consegue compreender o amor por que não se sente tão amado.Ele não se sentia destinatário de amor tão grande, não compreendia que era tão carecedor.
Por isso Jesus diz: "Aquele a quem foi perdoado, pouco ama".
Muitos não entendem por que pessoas com um currículo extenso de maldades se tornam tão fervorosas no amor a Jesus. Muitos crentes não conseguem compreender como pecadores contumazes podem anunciar amor a Deus com tanta convicção.
Muitos de nós somos semelhantes ao irmão do pródigo.
Muitos de nós amam pouco, porque não entendemos ainda o quanto fomos e somos perdoados.
Se você entender que é muito amado, tenha certeza: será muito mais fácil amar o próximo. Será possível amar o diferente, o que não está incluído no seu círculo religioso, o que não defende as mesmas posturas que você.
Se você se sentir muito amado, aí então poderá olhar para o outro, por pior que ele lhe pareça, por mais reprovável que suas atitudes se afigurem, com o mesmo amor com que é amado.
I João 4:19: " Nós amamos por que Ele nos amou primeiro".
Que tal se entregar os braços de Jesus e aceitar a obra que Ele já realizou por sua vida? Que tal se desvestir de toda a sua arrogância ou soberba religiosa e entender que a sua justiça própria é como "trapo de imundícia"?
Que tal dar razão a Deus e aceitar a oferta que Ele já fez por sua vida?
Aceite a oferta da Graça, não há reparos ou complementos humanos a ela.
Romualdo Junior
Mensagem compartilhada no último domingo, dia 20 de maio de 2012.